O fotógrafo Wagner Araújo, que há cerca de 25 anos vive em Goiânia, voltou a Governador Valadares (MG), sua cidade natal, para documentar os efeitos do
rompimento da barragem em Mariana. O resultado são cenas dramáticas de dor e sofrimento, registradas em preto e branco, um tom apropriado à dimensão
da tragédia.
Ainda não passou e ninguém sabe quando desaguará essa dor. A tragédia anunciada do rompimento da barragem de Mariana ficou cravada nas Gerais de Minas
e no Vale do Rio Doce, agora transfigurado num imenso vale de lama tóxica, impregnada em seu leito, em suas águas, em sua vida, na memória e no coração
de 3 milhões de pessoas que vivem em suas margens.
Lentas e silenciosas suas águas continuam caudalosas e vermelhas mesmo depois de algumas chuvas. Não correm mais: se arrastam sinistras e tristes. Sangrando,
morbidamente anunciam o pavor até mesmo na barra do mar, onde já não tinha mais foz, agonizando.
Agora, atingido e morto espalha o temor até o Parque Nacional Marinho de Abrolhos. Agora, tingido de vermelho, percorre 800 k matando tudo a sua frente,
peixes, sonhos e gente. Agora, atinge nossa alma que busca respostas nos céus e na ciência dos homens ainda velada. O que escondem estes pobres homens?
Por que não ‘abrolhos’ diante deste perigo?
Será que tudo acontece só para vermos o valor da vida, da graça da natureza, da beleza do rio? A grandeza da água doada de graça? Para corrigirmos a rota
da nossa conduta egoísta de exploradores, de consumistas, de corruptos e hipócritas?
Nasci neste rio, aqui vivi numa ilha até os 15 anos. Bebi, nadei, pesquei, sonhei e naveguei com canoa e catuá por suas verdes, transparente e doces águas.
Hoje, choro.
Levaram os índios Botocudos, Aymorés, Krenak… depois a madeira, depois as árvores. Meu pai dizia: “Os coronéis não deixam nem uma árvore para o vaqueiro
não parar na sombra!” Levaram a sombra trouxeram o gado… O que era mata atlântica e clima tropical virou deserto semiárido! Pobres homens, não sabiam
e não sabemos o que estamos fazendo. Agora, levaram a água que dava vida a toda vida deste meu vale.
O que mais assombra nesta lama em seu leito?
O que quer esta lama de gente sem jeito?
O que faz essa lama no meu peito?
Já matou toda a fauna e ainda não sabemos sua composição química, só sabemos que é mortífera, pois na sua primeira onda matou todos, todos os peixes do
rio! Mercúrio, cromo, manganês, ferro, alumínio, arsênio, antimônio, bário, chumbo, cobre, níquel, zinco e até Urânio. Dizem a meia boca os laboratórios
independentes, abafados e calados… Será verdade? Aqui ninguém sabe de nada, feito cegos nadamos no escuro, falta claridade, falta transparência na
água e nas respostas. Estamos abandonados, milhões de pessoas sem saber o que passa e se passa. Feito peixes fogem da lama do descaso. Muito triste.
Cegos guiando cegos.
Já se passaram 27 dias do rompimento da barragem em Mariana e os venenos da desinformação são bebidos pela população, ignorantes e desorientados pelo gesto
(suicida?) da líder municipal que bebeu um copo da água “tratada” e duvidosa diante das câmeras. Meu Deus, foi só desespero? Ou a estupidez humana
se precipita novamente na guia deste povo marcado?
Imaginem o caos, 280 mil pessoas sem respostas claras a respeito da água de sua cidade, se é potável ou não? Milhares de pessoas, idosos, crianças, grávidas
e aleijados fazem filas o dia inteiro no sol escaldante e até debaixo de chuva para não beber da água que a líder disse que bebeu. A distribuição de
água mineral evidencia o clima de guerra. Estamos no Haiti? Na África?
A outra lama deste país, talvez a pior, é esta falta de confiança nas pessoas que estão no lugar de autoridade. A presidenta demorou 7 dias para visitar
o local da tragédia, e chegando fez o gesto também precipitado de quantificar em R$ 250 milhões a multa a Samarco (Vale e BHP Billiton). Pobre, ela
não sabe o valor de quase nada, é uma indiferença, uma insensibilidade terrível que continua decepcionando o povo indignado.
O Rio Doce morreu asfixiado em plena piracema. Matrizes com mais de 30 anos de idade a lama levou. Agora os pescadores se debatem: só da Colônia Z19 na
região de Valadares são mais de 550 que perderam seu único ofício. Se pegavam um peixe na piracema eram presos. E para quem matou todos, qual é a pena?
Não vale quanto pesa, só vale o quanto se paga neste país?
Estamos confusos e preocupados, muita suposição e perigos circulam nosso imaginário, uns dormem, outros não, uns correm mudando da cidade outros não sabem
a quem recorrer. O caos ecológico, social, político e ético predomina. Por tudo isso precisamos da presença constante da imprensa – isenta, para nossa
defesa civil!
Ninguém sabe o tamanho da calamidade, mas ela não aconteceu, ela está acontecendo! Piedade e horror se misturam aos sentimentos de medo, temor e desolação.
O Vale não é mais do Rio Doce se transbordou num Vale de lágrimas.
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Texto e fotos: Wagner Araújo / Especial para O Popular